14 de agosto de 2013

Laços de Família

Ilustração de Ivan Rodrigues - 1927/2008

Há uma história que gostaria muito de compartilhar, uma experiência pessoal, algo simples, mas renovador. Peço que todos coloquem de lado suas crenças espirituais e simplesmente sintam.

Uma noite, eu estava bem triste, por questões pessoais, naquela noite eu fazia vários questionamentos sobre a necessidade de ter nascido em uma família tão diferente, da família que eu construía, e procurando razões para manter afeto entre pessoas do mesmo sangue.


 Meu coração estava cheio, antes de adormecer, me lembro de ter feito uma oração as minhas mães de outras vidas, afinal crendo em reencarnação como creio, elas poderiam me orientar. Recebi uma visita, o que para alguns pode ser apenas um sonho, mas com certeza pra mim não. Me lembro de estar deitada quando fui despertada, com a presença de uma mulher. Logo levantei e fui ao encontro dela, que era alguém que eu conhecia muito bem, uma mulher negra, de seios fartos, traço fortes, vestida como as antigas escravas, toda de branco. Meu coração se encheu de amor por aquela mulher e, nos olhos dela, eu podia ver o mesmo.Não houve diálogo entre nós, ela abriu os braços e me acolheu em um abraço muito apertado.Eu pude sentir a fartura dos seios, suas mãos grandes, seu sorriso maternal e ela simplesmente disse “estou aqui”. Já se passaram muitos anos desde aquele dia e não houve uma só vez em que lembrar dela não me emocionasse. Ainda sinto o calor daquela mulher, a generosidade e o amor com que ela me olhou e abraçou, momento em que as palavras foram dispensadas.

Essa mulher e seu abraço é a lembrança mais forte que tenho da figura materna. Hoje, quando quero viver uma experiência de afeto, quando penso na família e no significado, os meus pensamentos são dedicados a ela. Tenho a sensação que não nasci daquele ventre, mas por alguma razão aquela mulher foi uma mãe pra mim. Ela me escolheu, assim como eu a escolhi e, quando meus olhos fecharem aqui nesta vida, tenho certeza que encontrarei os dela.

Talvez, quem tem muito presente a figura maternal, não possa compreender essa emoção. Mas muitos nascem em família, e passam a vida imaginando as razões. Uma querida amiga me ensinou que fazemos essa escolha em um nível de consciência pleno, por razões que hoje não conhecemos, mas de uma forma muito sábia. Aprendi também que não posso pedir afeto e amor e só posso compartilhar o que está no coração.

A Bíblia diz que “devemos respeitar e honrar nossos pais”(Efésios 6:1-3). Por diversas razões, isso é o que somos ensinados a fazer. E fazemos. Mas, há aqueles que não amamos, não apreendemos a amar, nestes momentos devemos pensar como cristãos e a missão de “amar ao próximo como a si mesmo”(Mateus 5:43-44). Não existe culpa, não existe castigo, somos livres para amar e trilhar nossos caminhos e, durante esse trajeto, encontrar pessoas em ressonância conosco e descobrir afinidades com estranhos “desta vida”. Quem nunca teve a sensação de olhar para um estranho e sentir como se já o conhecesse?

Os laços de sangue não são garantia de amor, podemos ver isso, em diversas situações e em histórias com final trágico. Contudo, aprender a viver de forma consciente com essa ausência é importante para encontrar equilíbrio e poder construir nossos próprios laços de família os verdadeiros LAÇOS DE AMOR.

4 comentários:

  1. Esta sua história é muito linda.
    Algumas pessoas acham que não escolhemos as pessoas que vem conosco em forma de família. Escolhemos sim, e quando necessitamos, nos são impostas algumas pessoas, para que possamos nos acertar através do amor, o que nem sempre acontece e ai fica para uma próxima existência. Mas...os amigos, estes sim, estes nós escolhemos, conscientemente escolhemos, e através da simpatia, do amor sem explicação, sem exigências, estes são nossas famílias por escolha, onde todos os momentos são de amor e alegria.Amiga querida, obrigada por fazer parte de nossa família de amigos. Grande beijo.

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  2. Obrigada Sandra por me receber na sua vida, por ser parte desta família.

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  3. Marcia Regina Victoriano2 de setembro de 2013 19:20

    Realmente, um lindo depoimento. Fiquei pensando: quem disse que ela não foi sua mãe em outra vida? Acho que ela é a sua resposta. Você, um dia, viveu muito esse amor e por isso sabe dar esse amor! E, como ela mesmo disse: ela estará lá, sempre que precisar!

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    1. Márcia, Adorei dividir essa experiência. Essa mulher me inspira sempre a amar e ser mãe. Obrigada.

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